
E brigou o zero com todos os números. O um o acusava de abstrato. O dois, de simbólico. O três – um dos mais fundamentalistas – de herético. Quando formava um 10, ficavam com ciúmes 9 uns, 5 dois e 2 cincos. Todos o queriam à esquerda. Ele se recusava. Odiavam-no, pois o zero lhes roubava a individualidade. O quatro, cioso de suas propriedades matemáticas, xingava-o de “nada”. De cabeça quente, o zero respondia que “nada” era a vagabunda da raiz quadrada que lhe dera origem. Passada a raiva, era dominado por um sentimento de profundo vazio existencial. Não conseguia se multiplicar. Tampouco estava dividido, que isso não era próprio de sua natureza. A verdade é que ninguém sentia sua falta. Tinha ciência das operações básicas: zero mais um é um; um menos zero, um. Não fazia diferença alguma, portanto. Acrescentava nada. Cansou-se daquilo tudo.
Resolveu abandonar a opressão daquela aritmética ditatorial. Buscou refúgio na fronteira da filosofia com a poesia. Lá – comentava-se – tudo podia acontecer. Pois que num belo dia de chuva, ainda tomado pela escuridão de sua não-existência, o nosso zero caminhava sozinho por um vale. De repente, um susto. Deparava-se com sua metade impossível! Um zero fêmea, um não-ser perfeito, uma ausência encantadora. Reconheceram-se imediatamente. Eram os dois lados de uma mesma equação. Iguais, complementares. Contrariando todas as convenções e valores da sociedade matemática, somaram-se graficamente. Aglutinaram-se como cachorros. Apaixonaram-se. Hoje podem ser vistos lado a lado, para sempre inalcançáveis, imperturbáveis, indivisíveis. Moram numa casinha branca, perdida no reino do infinito.
∞
9 Comments:
Excelente! Com destaque para o final.
Abraços,
N.
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Anônimo, at 9:31 AM
Também gostei. Só acho que a foto das alianças, do texto abaixo, são mais apropriadas para a história dos zeros: formam o símbolo do infinito, não?
Abraço, M.
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Anônimo, at 11:02 AM
Gostava mais do romântico mentiroso...assim vais perder o público feminino... Cadê aquela paixão dos primeiros textos?
Beijos,
Ma
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Marcela, at 11:24 AM
Bem escrito, singelo. Retoma seus textos iniciais, bem humorado e sem a gravidade dos últimos. J.
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Anônimo, at 2:31 PM
Gostei da interpretação abaixo de que dois zeros formam o infinito. Mas, ao ler, entendi que o casamento do zero com a zera dera num coração!
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Anônimo, at 4:14 PM
Assinaturas nos comentários, por favor!!! Nem q seja essa letrinha seguida de um ponto!!!!
Abs,
Raphael
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Raphael, at 2:43 AM
Muito bom, vc mostra que transita muito bem tanto no romantismo como no humor inteligente. Na prosa e na poesia.
Público feminino, desistam do rapaz não.
Letrinha seguida de ponto
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Anônimo, at 12:23 PM
Inauguro agora meus comentários! Gostei da saga dos zeros. Parabéns pelo texto e pelo público feminino.
Abraço,
Danilo
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Anônimo, at 10:38 AM
Gostei muito do texto. Voltarei aqui.
Embora no começo a imagem parece não ter nada a ver com o texto, ela combina perfeitamente. Afinal, se olharmos para o centro, tentando achar seu início, temos a impressão de infinito.
ds-rain
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Anônimo, at 7:45 AM
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