Parola Melíflua, Patranhas e Carapetas

2.5.06

Zero absoluto


E brigou o zero com todos os números. O um o acusava de abstrato. O dois, de simbólico. O três – um dos mais fundamentalistas – de herético. Quando formava um 10, ficavam com ciúmes 9 uns, 5 dois e 2 cincos. Todos o queriam à esquerda. Ele se recusava. Odiavam-no, pois o zero lhes roubava a individualidade. O quatro, cioso de suas propriedades matemáticas, xingava-o de “nada”. De cabeça quente, o zero respondia que “nada” era a vagabunda da raiz quadrada que lhe dera origem. Passada a raiva, era dominado por um sentimento de profundo vazio existencial. Não conseguia se multiplicar. Tampouco estava dividido, que isso não era próprio de sua natureza. A verdade é que ninguém sentia sua falta. Tinha ciência das operações básicas: zero mais um é um; um menos zero, um. Não fazia diferença alguma, portanto. Acrescentava nada. Cansou-se daquilo tudo.

Resolveu abandonar a opressão daquela aritmética ditatorial. Buscou refúgio na fronteira da filosofia com a poesia. Lá – comentava-se – tudo podia acontecer. Pois que num belo dia de chuva, ainda tomado pela escuridão de sua não-existência, o nosso zero caminhava sozinho por um vale. De repente, um susto. Deparava-se com sua metade impossível! Um zero fêmea, um não-ser perfeito, uma ausência encantadora. Reconheceram-se imediatamente. Eram os dois lados de uma mesma equação. Iguais, complementares. Contrariando todas as convenções e valores da sociedade matemática, somaram-se graficamente. Aglutinaram-se como cachorros. Apaixonaram-se. Hoje podem ser vistos lado a lado, para sempre inalcançáveis, imperturbáveis, indivisíveis. Moram numa casinha branca, perdida no reino do infinito.

9 Comments:

  • Excelente! Com destaque para o final.
    Abraços,
    N.

    By Anonymous Anônimo, at 9:31 AM  

  • Também gostei. Só acho que a foto das alianças, do texto abaixo, são mais apropriadas para a história dos zeros: formam o símbolo do infinito, não?
    Abraço, M.

    By Anonymous Anônimo, at 11:02 AM  

  • Gostava mais do romântico mentiroso...assim vais perder o público feminino... Cadê aquela paixão dos primeiros textos?
    Beijos,
    Ma

    By Anonymous Marcela, at 11:24 AM  

  • Bem escrito, singelo. Retoma seus textos iniciais, bem humorado e sem a gravidade dos últimos. J.

    By Anonymous Anônimo, at 2:31 PM  

  • Gostei da interpretação abaixo de que dois zeros formam o infinito. Mas, ao ler, entendi que o casamento do zero com a zera dera num coração!

    By Anonymous Anônimo, at 4:14 PM  

  • Assinaturas nos comentários, por favor!!! Nem q seja essa letrinha seguida de um ponto!!!!
    Abs,
    Raphael

    By Anonymous Raphael, at 2:43 AM  

  • Muito bom, vc mostra que transita muito bem tanto no romantismo como no humor inteligente. Na prosa e na poesia.
    Público feminino, desistam do rapaz não.

    Letrinha seguida de ponto

    By Anonymous Anônimo, at 12:23 PM  

  • Inauguro agora meus comentários! Gostei da saga dos zeros. Parabéns pelo texto e pelo público feminino.
    Abraço,
    Danilo

    By Anonymous Anônimo, at 10:38 AM  

  • Gostei muito do texto. Voltarei aqui.

    Embora no começo a imagem parece não ter nada a ver com o texto, ela combina perfeitamente. Afinal, se olharmos para o centro, tentando achar seu início, temos a impressão de infinito.

    ds-rain

    By Anonymous Anônimo, at 7:45 AM  

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